A 20ª Biennale Danza, em Veneza, segue consolidando sua posição como um dos principais laboratórios da criação contemporânea ao apresentar uma programação que questiona as fronteiras da dança. Com direção artística do coreógrafo britânico Wayne McGregor, a edição de 2026 adota o tema “Time Does Not Exist” (O Tempo Não Existe), inspirado nas teorias do físico Carlo Rovelli, e reúne mais de 150 artistas em um programa formado exclusivamente por novas criações.
Mais do que destacar novas coreografias, a Biennale propõe uma reflexão sobre a própria definição de dança. Em reportagem publicada nesta quinta-feira (23), o jornal britânico The Guardian observa que algumas das obras apresentadas expandem o conceito tradicional da linguagem ao transformar elementos como luz, fumaça, água e som em protagonistas da cena.
Um dos trabalhos mais comentados é Invisible, do italiano Andrea Salustri. Com formação em circo e filosofia, o artista constrói uma experiência cênica em que os movimentos não pertencem apenas aos intérpretes, mas também aos fenômenos físicos criados em palco. Microfones amplificam gotas d’água, feixes de luz atravessam a fumaça e o espaço ganha vida como se os próprios elementos naturais fossem coreografados, propondo uma nova leitura sobre o que pode ser entendido como dança.
Outro destaque da programação é Fampitaha, Fampita, Fampitàna, da coreógrafa franco-malgaxe Soa Ratsifandrihana. A obra investiga a memória corporal e a experiência da diáspora por meio de uma dramaturgia construída entre dança, música e narrativa, explorando as relações entre identidade, pertencimento e transmissão cultural.
A edição também homenageia a artista sul-africana Mamela Nyamza, vencedora do Leão de Prata da Biennale Danza 2026. Seu espetáculo The Herd/Less utiliza imagens simbólicas para discutir coletividade, poder e vulnerabilidade, mantendo a forte dimensão política que marca sua trajetória artística. Já o Leão de Ouro pelo Conjunto da Obra será entregue à companhia australiana Bangarra Dance Theatre, referência internacional por integrar a cultura dos povos originários australianos à criação contemporânea.
Entre os nomes mais aguardados está ainda o israelense Emanuel Gat, radicado na França, que apresenta Five Days in the Sun. A obra dialoga com a Quinta Sinfonia de Gustav Mahler, propondo uma relação menos convencional entre música e movimento e reafirmando uma das características do coreógrafo: evitar correspondências óbvias entre partitura e dança.
Além dos espetáculos, a Biennale promove instalações, debates, oficinas, encontros com artistas e atividades do Biennale College Danza, programa voltado à formação de jovens criadores. A edição reúne mais de 60 eventos, incluindo nove estreias mundiais, três estreias europeias e oito estreias italianas, reafirmando o compromisso do festival com a experimentação e o desenvolvimento de novas linguagens coreográficas.
Serviço
📍 Veneza, Itália
📅 17 de julho a 1º de agosto de 2026
🎟️ Programação, ingressos e informações: https://www.labiennale.org/en/dance/2026


